Perspectivas e Olhares na Planície

«Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.» Paulo Freire

Sr. Ministro da Saúde veja as Panelas que deram um grande “Panelão”

Cozinha da Casa de Manhupe, Souza Cardoso


 


Há um par de dias contaram-me uma história daquelas de encantar que versava assim:


 


Era uma vez uma menina e moça que ao ir buscar uma infusa de água ao chafariz ouviu o pregão: precisa-se de uma menina e moça para ajudar as panelas a ficarem luzidias na cozinha do Hospital, elas são muito vaidosas e querem estar sempre radiosas, quem quer ir para a cozinha do Hospital, quem quer…


A menina e moça não vai de modas e pensou: esta é uma grande oportunidade de sair desta minha vida miserável. Bem pensado, melhor dito: foi oferecer-se para ajudar as panelas a serem as panelas mais cintilantes do Baixo Alentejo. A menina e moça sempre muito tímida, no entanto, muito feliz por se sentir útil e fazer também felizes as panelas do Hospital: era tal o brilho que emanavam que era o Sol no céu e as panelas na Terra.


A alegria da menina e moça foi-se desvanecendo de dia para dia… Até que uma panela, inesperadamente, cheia de pena de ver a menina e moça a chorar todos os dias pelos cantos da cozinha e cansada de o seu brilho ficar manchado com as lágrimas dela, a panela:


– Cu Cu! Menina, menina porque tanto choras?


– No início adorava estar a fazer-vos companhia e ajudar a serem as panelas mais bonitas de um dos Concelhos da Margem Esquerda do rio Guadiana. Mas, agora sinto-me infeliz e podia fazer outras coisas igualmente belas noutras secções do Hospital.


– Compreendo. Não chores mais. Como forma de gratificação, eu vou oferecer-te um “panelão”. Espera e verás.


– Muito obrigada, panela. Se me conseguisses um “panelão”, prometo-te que nunca mais ouvirás dizer que eu andarei triste e aflita a chorar pelos cantos…


 



E assim foi a panela cumpriu o prometido e presenteou a menina e moça com um “panelão: iria ser uma espécie de administrativa com direito a secretária própria no Centro de Saúde.


A menina e moça também fez o que prometeu, nunca mais chorou, pelo contrário, passa os dias sentada a olhar para o vazio, mas com um sorriso de orelha a orelha…


 


À menina e moça saiu-lhe a sorte grande: sem melhorar as habilitações literárias tem uma função à Cinderela, e às panelas, que entretanto se retiraram para o Hospital da sede do distrito, com esta atitude misericordiosa livraram-se de todos os dias levarem com a chuva de lágrimas que arruinavam a fulgência que queriam ter para concorrerem ao concurso: “Espelho meu, espelho meu, quais são as panelas mais brilhantes de todas as cozinhas hospitalares de Portugal” – o nome é comprido, porque é em jeito de homenagem às extensas listas de espera que existem nas muitas especialidades dos hospitais públicos portugueses.


 


Vitória, Vitória, acabou-se a história…


 


Podeis não acreditar, parece um conto de fadas, mas não é. Não são factos efabulados, são factos verídicos e muito embaraçosos para o Ministério da Saúde. Quantos casos iguais a este não sucederam e continuam a suceder por este Portugal. Quantos?


Sr. Ministro da Saúde Paulo Macedo: sabia que para estar nos Centros de Saúde não é preciso saber ler, basta estar sentado e olhar para quem chega? Muitos dos seus assalariados estão nestas condições: de nada fazer, mas saber sim, não da profissão, mas para levantar o “dinheiriiiiinho” a cada dia vinte do mês, todos sorridentes e à espera que venha o outro mês, não para trabalhar, mas para receber. É assim que está o nosso país! Desta forma não chegaremos a lado nenhum e por este andar teremos a Sra. Merkel à perna, outra vez?


 



 

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«(...)o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito, e a realidade dum solo exausto.» Miguel Torga