Perspectivas e Olhares na Planície

«Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.» Paulo Freire

Boa Semana

Comecemos a segunda-feira com uma fotografia de domingo. 

O Primeiro-Ministro terá ido de comboio à missa dominical? A fazer fé na fatiota deve ter sido o ministro da palavra na missa lá para o Porto. Ó Excelso Luís, aceite esta dica: se não quer ser chamado de betinho pimba, não conjugue sapatilhas – até vou de encontro ao seu vocabulário de um homem do norte – com a camisa acompanhada pelo cardigan e as calcinhas estilo chino. Tem de calçar sapatos de vela, se faz favor. Para se ser um betinho sem esforço (não sendo de berço) é como a mulher de César, não basta ser, é preciso parecer, sapatinho de vela, percebeu ou quer que lhe mande pelo correio uns exemplares? Só falta saber o número que calça!

(Vou telefonar ao seu amigalhaço Hugo Soares, outro betinho pimba – os amigos são sempre à nossa imagem – para me facultar esta informação importantíssima.)

E quando aparece com o blazer enfiado no dedo pousado às costas na sua pose para uma selfie solicitada por alguém, supostamente, deve fazer do comboio o seu principal meio de transporte, é o clímax da deselegância. Isto não se chama descontração (encenada), é ser-se azeiteiro. Nada mais do que isso. Quer ser o que nunca será. Cada um nasce para o que nasce.

Outro reparo, nas redes sociais tinha diversas fotografias a testemunhar a aventura domingueira na estação da CP do querido Primeiro-Ministro para promover o passe ferroviário onde parecia a Anita dos livros: 

Luís na bilheteira da CP;

Luís na estação à espera do comboio;

Luís dentro do comboio;

Luís à conversa enquanto que o comboio não iniciava a viagem;

Luís de pé (agarrado ao varão) a seguir viagem.

Prometo, é o último reparo. O Primeiro-Ministro a tentar ser betinho afirma que com este passe de vinte euros conseguimos percorrer Portugal de norte a sul de comboio. É pena o Baixo Alentejo ser sempre aquele parente pobre que muitas famílias abastadas têm e em ocasiões de festas para não se lembrarem em aparecer sem ser convidados e envergonharem os familiares anfitriões, reservam-lhes uma mesa exclusiva na cozinha em sintonia com a criadagem. Assim, somos nós, com  a automotora a gasóleo de Beja à Casa Branca enquanto que as outras regiões têm comboios de primeiro mundo. Passamos do rótulo de comunistas a monhes que não merecem um comboio de primeiro mundo.

Desejo a todos vós uma semana a serem aquilo que realmente são e de preferência a andar de comboio e não de uma automotora datada que deve estar no museu a encher-se de pó numa exposição permanente para ser apreciada e não utilizada. Eu cá estarei dentro da automotora carregadinha de pó, mas do deserto africano. 

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«(...)o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito, e a realidade dum solo exausto.» Miguel Torga