1. O que me apraz escrever sobre o programa e-lar engendrado pelo ministério liderado pela bejense que pouco ou nada 'puxou" para o distrito mais desprezado do país. Evidentemente, tal cenário acontece(u) com o consentimento da população, cuja a maioria cegou com a desinformação imposta por um determinado partido com muitas ligações à Rússia.
2. Inicialmente, estas verbas vindas da União Europeia, do famigerado Plano de Recuperação e Resiliência de Portugal, podiam abranger a substituição de frigoríficos e máquinas de lavar roupa por uns com maior eficiência energética. Alguém terá ido à casa de banho para tomar conselho resultando, assim, numa reviravolta nos critérios para aceder a este apoio. Não sei como não há vozes mais altivas a denunciar esta clara discriminação em relação ao gás. Sob a batuta insidiosa "electrificação em casa", o team electricidade passou a perna ao team gás.
Esqueçam o frigorífico ou a máquina de lavar nova. Mas, imaginem esta situação: a promessa política de electrificação foi concretizada passados quarenta e tal anos, finalmente, o Ti João tem electricidade a entrar pela porta do seu monte, única morada em toda a sua vida, situado na zona mais esquecida e profunda do seu Paços de concelho, por isso tem um frigorífico a gás e pretende trocá-lo antes do Natal, qual seria a resposta dos serviços responsáveis pela análise das candidaturas a este subsídio. Não sei se os excelentíssimos redactores do regulamento sabem da existência de frigoríficos a gás em muitos lares portugueses, perante este exercício hipotético, será que o Ti João não era merecedor de receber o vale para ir adquirir um frigorífico ligado à corrente eléctrica? O conceito do programa e-lar não seria nada beliscado, pelo contrário, preenchia sem espinhas a missão do programa: restringir o uso do gás.
3. "Maria da Graça Carvalho está satisfeita com a adesão dos fornecedores ao programa que procura aumentar a eficiência energética das famílias portuguesas. “Superou as melhores expectativas”. Não foi só a minha conterrânea, também eu fiquei espantada com o volume de fornecedores inscritos. Depois lembrei-me do estudo da OCDE que nos avisou da fraca proficiência em literacia nos descendentes de Camões com idades compreendidas entre os 25 e os 65 anos. Isto é, em cada dez portugueses, quatro só conseguem compreender textos simples e curtos. Deste modo, a procura por parte dos donos de lojas de electrodomésticos a este programa era expectável. Quando a Maria Patrocínia chegar com o cheque para descontar na loja "Américo e filhos", esta e os outros aderentes vão torcer a orelha por terem sido uns baldas na escola, preferindo dar umas passas no cigarro (ou ganzas) do que responder a perguntas de interpretação de texto ou ir descobrir as maravilhas dos chupões em vez de ficar com a boca seca nos exercícios propostos de leitura em voz alta. E pior, o pagamento dos cheques não deve ser logo automático, era um milagre se assim fosse, vão arrepender-se como uma Madalena arrependida por terem obtido o ensino obrigatório através do flagelo que foi/é o Novas Oportunidades, ou em alguns casos terem feito o 9.° naquelas formações do IEFP com bolsa e subsídio de almoço (conheço exemplos que devem ter dois ou três diplomas do 9.° ano), ficam a saber nada e algum conhecimento que tinham, ficou esquecido para sempre. Ficam sem os fornos eléctricos e o dinheiro irá cair, com sorte, no dia do Nascimento de Jesus.
4. Descarborizar as casas dos portugueses mais vulneráveis, diz a Ministra se tivesse o cabelo comprido seria a Jessica Rabbit portuguesa: "São elegíveis todos os equipamentos eficientes, elétricos, com classificação A. Claro que são equipamentos não muito caros, porque se trata de um programa para pessoas carenciadas e vulneráveis. Não estamos a falar em bombas de calor. Precisamos de um banho de realidade sobre o que é o nosso país". Ora claro, as bombas de calor gastam menos energia, logo a factura da luz seria mais baixa, não é? Qualquer das formas essas famílias mais carenciadas não perdem muito tempo com os tachos e panelas, sabe porquê, minha querida? Porque vão buscar as refeições ao take away de um Pingo Doce qualquer da vida (e a outros um pouco especiais que não me apetece estar a desvendar, chega de ser a má da fita), também é muito frequente pegarem no carrinho movido a combustível fóssil para irem jantar a paparoca da mãe. Como a comida fast food não presta se for reaquecida no forno, maneiras que os comilões das empresas fornecedoras da magia de ligar o interruptor e exclamarmos: "habemus lux" não irão aumentar muito os lucros para distribuir pelos seus accionistas.
Em relação ao "banho de realidade", não sei quais são os gostos da doutora, eu cá gosto de esfregar-me debaixo do chuveiro – água aquecida pelo monstro poluente baptizado de esquentador a gás, ao menos é daqueles inteligentes – com gel duche comprado na farmácia. Eu sei quem precisa de levar chuveiradas de realidade, e não sou eu, nem que vai perder tempo a ler estas linhas!
5. É um aviso à navegação: de facto o e-lar é para todos, todavia quem tem rendimentos médios estará sempre em vantagem, dado que a instalação destes equipamentos eléctricos não se resume à montagem, é necessário proceder à renovação da rede de distribuição, neste caso passar a ser eléctrica. Não farão essa adaptação gratuitamente. No regulamento prevê que os mais carenciados (residentes em bairros que foram requalificados com o PPR e os beneficiários da tarifa social de electricidade) recebam cem euros pela instalação do forno e placas eléctricas, por exemplo. Não sei a quem pediram orçamento, mas fazer uma instalação nova não tem este preço. Era bom era. Sem mencionar a questão de, possivelmente, ser necessário proceder à mudança da potência contratada junto do fornecedor da luz. A Deco alertou para a falsa poupança no que toca à substituição do esquentador a gás pelo termoacumulador. Façam bem as contas, se têm dinheiro disponível para os encargos extra para usufruir desta iniciativa governativa. Arranjarem mais uma dor de cabeça, não será de todo agradável. Não li no regulamento nenhuma alínea a fazer referência à comparticipação de medicamentos em caso de dor cabeça forte, muito menos financiar o pagamento de uns dias de internamento num hospital em virtude do coração não ter resistido à factura apresentada pelo electricista certificado. Será triste querer estrear o forno e não conseguir assar o frango do aviário como é de costume nos almoços de família com a sogrinha todo o santo domingo. Rezar não será solução para a embrulhada a que muitos agregados familiares estarão envolvidos com a adesão à iniciativa e-lar. Nem menciono a crise de choro quando os olhos virem o total para pagar com os consumos reflectidos da placa de indução, do forno eléctrico ou do termoacumulador.
Ah já me ia esquecendo, mesmo à alentejana, as despesas podem aumentar se não tiver tachos adequados para a placa de indução. É só vantagens, na graça de Deus, eu a ser religiosa quando sou agnóstica.
6. Querem as habitações 100% ligadas à electricidade, parecem um bulldozer a terraplanar as escolhas e os interesses pessoais dos contribuintes portugueses — seguindo à risca a política energética definida pela UE –, ou é com ficha na tomada ou é com ficha na tomada. Não vivemos verdadeiramente em pobreza energética como estes políticos "especialistas" fundamentalistas em ceder ao lobbing, vivemos, antes, numa pobreza democrática, em que nos impõem as decisões ideológicas deles, sem opção de escolha, guiam-nos até ao abismo sempre motivados pelos interesses dogmáticos dos que mandam efectivamente no mundo empresarial e geopolítico. É caricata a justificação dada pela Ministra do ambiente de seguirmos as linhas da seita da energia (renovável): "Mas também por uma questão de proteger em relação ao preço, se continuamos dependentes de gás, continuamos completamente vulneráveis a oscilações exteriores, a guerras, não temos gás natural, temos todo o potencial de energias renováveis, para produzir eletricidade, para baixar o preço, quando as rendas garantidas estão a começar a acabar (...)". É caricata no sentido de importarmos quase a totalidade da electricidade consumida à Espanha, pagarmos taxas para financiar a tal energia renovável, taxinhas para pagar custos que as empresas no ramo energético não querem pagar, por isso, somos dos países da UE com a factura mais cara. Aliás, em Portugal, é tudo caro da água ao sal, somos um país pobre, subsídio-dependente da UE, transferindo esse modo de viver para a sociedade portuguesa, ou seja, os portugueses beneficiam de apoios directos e indirectos, tornando-nos num país com elevada carga fiscal, enorme quantidade de créditos ao consumo (há quem compre malas a crédito); em consequência dos salários muito baixos e o nível básico de vida ter encarecido, os incentivos do Estado servem para continuar com a água pelo pescoço a bater na boca e assim respiramos um pouco. O Euro cimentou uma característica muito nossa: a pobreza crónica, porém está mascarada esta nossa condição com as futilidades promovidas pelos presidentes das câmaras municipais e as megalomanias estruturais pouco estruturantes que favorecem apenas uma diminuta parte da população.
Não quero terminar sem mencionar o seguinte: há uma tentativa de nos convencer que é mais seguro a rede eléctrica do que o gás. Se há fugas de gás, também é verdade que existem curtos circuitos que podem resultar numa tragédia.
Sem mais delongas, nós temos de fazer a transição energética e mais nada. Batem no peito que são democratas, imagino se não fossem.