Perspectivas e Olhares na Planície

«Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.» Paulo Freire

As "Marcelices" têm sempre uma mensagem implícita

O pano da crise política, que muitos apelidaram de puro tacticismo político, vai dar, quem sabe sobrar, mangas para todas as t-shirts promocionais das Jornadas da Juventude que os voluntários irão envergar durante o evento em Portugal. Mangas encardidas, com as voltas que o pano dá, muita sorte têm em as  ditas se apresentarem nessa tonalidade, algo que a Igreja Católica Portuguesa está mais do que habituada, com os seus constantes escândalos, é mais árdua a tarefa de executar a barrela para livrar o pano das  muitas nódoas incrustadas, por isso o branco sujo resolve-se rápido,  bastando  por a quarar.


1. O Sérgio Sousa Pinto referiu que não comentava as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa enquanto comia o gelado. Comportamento oposto seguiu o seu colega de painel de comentário político, Sebastião Bugalho, optando por tecer a afirmação de que já era tempo de pararmos de comer gelados com a testa.


2. Eu que não tenho o emprego de deputada, nada me impede de mandar mais gasolina, sou uma desgovernada a desperdiçar um combustível tão caro, para a fogueira ter labaredas a tocarem no céu e chamar atenção dos olhinhos do Primeiro-Ministro, uma vez que o seu passatempo favorito é contemplar o firmamento; como sou uma cidadã atenciosa faço-lhe as vontadinhas todas, não quero ter um Primeiro-Ministro aborrecido, impedido de fazer o que  mais gosta: olhar para o firmamento para ter ajuda divina.


Assim, vou partilhar o meu ponto de vista: o Presidente da República escolheu a hora dos telejornais para fazer a sua "Marcelice", o melhor comentador político de sempre sabe melhor do que ninguém qual a hora propícia em que os portugueses  estão em frente ao televisor. Queria ter uma grande audiência, inclusive a do Primeiro-Ministro, para ir comprar o seu gelado ao Santini escoltado pelos olhos dos telespectadores para implicitamente passar duas mensagens ao António Costa, a primeira mensagem é: a escolha da sobremesa foi intencional, não quis comer uma maçã em directo nos telejornais,  mas sim um gelado. Porquê? A razão é simples: a vingança é um prato que se serve frio/gelado. Os aromas escolhidos do sorvete: limão, chocolate com a framboesa a destacar-se foi para dizer que o partido cor de rosa não sai da sua mente, até num simples gelado é lembrado.


A segunda mensagem é: quando estava à espera da pergunta de um dos jornalistas levou a colher à boca com o sabor de framboesa olhando para a câmara quis mostrar ao António Costa que se for preciso, metaforicamente, o vai "comer" sem dó nem piedade, depois de o ter afrontado. E claro, vai ser quando ele quiser e não quando o Costa quer, pois quem tem a espada sobre a cabeça é ele, o Marcelo já não tem aspirações políticas além fronteiras. 


3. O mundo dos comentadores está suspenso. Estão em pulgas para saber o que o Presidente da República vai dizer às 20 horas. Certamente, não vai oferecer a receita dos gelados Santini. Vai ser o que o Marcelo quiser dizer, com o apoio dos seus conselheiros de Estado, portanto, não vai ser nada do que os comentadores vaticinam. Vai ser um aviso à navegação. O António Costa é hábil, porém o Marcelo é uma raposa velha que esteve muito presente no Estado Novo. Foi dos tais que mudou de guarda-chuva mantendo o cabo. A morte política de António Costa entrou em marcha na terça-feira, os prazos anteciparam-se, é verdade, todavia o Marcelo Rebelo de Sousa tem a estratégia delineada desde que tomou posse para o seu segundo mandato. 

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«(...)o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito, e a realidade dum solo exausto.» Miguel Torga