Perspectivas e Olhares na Planície

«Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.» Paulo Freire

As crianças passam muitas horas na escola...

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A realidade é mais crua do que estas frases feitas com o intuito de fazer despertar os pais que é preciso mudar a forma como gerem a logística familiar com os filhos. 


O professor Carlos Neto tem toda a razão, aliás as vezes que é chamado para dar a sua visão sobre os métodos educacionais e hábitos sociais adoptados pelos pais nestes últimos 20 anos (ou mais): as crianças não brincam ao ar livre, as crianças estão a perder motricidade, as crianças não andam a pé, não andam de bicicleta, etc. 


Porém, na prática quais seriam as soluções para as crianças não serem "vítimas do trabalho dos pais", e dessa forma evitar que passem "a maior parte tempo na escola"?


Em tempos idos a dinâmica familiar não era discutida e não havia este constante acordar para este problema, porquê? A resposta é fácil: a maior parte das vezes a mulher ficava em casa a cuidar dos filhos. Os filhos não estavam horas a fio na escola, aqueles que iam e os que não estavam sempre na companhia da mãe e em famílias numerosas os irmãos tomavam conta uns dos outros, mas mesmo assim a figura maternal tinha essa tarefa em exclusivo para si. 


Foi com o sacrifício das mulheres de prescindir de uma carreira tributiva que lhe desse independência monetária no futuro quando entrassem na hora da aposentação e hoje muitos filhos, maridos, família e inclusive governantes desprezam-nas e criticam-nas quando estas mulheres dizem a razão da reforma ser baixa.  Não foi por malandrice, foram mães que arrumaram como uma peça de roupa a mulher para serem donas de casa e viverem para o bem-estar dos filhos e não estarem dependentes de familiares. O que hoje se debate é o tempo excessivo que as crianças passam na escola, sendo que nos anos 70, 80, 90 não existia a oferta de actividades extra-curriculares, actualmente, por via das circunstâncias de ambos os pais estarem empregados, ser cada vez mais uma regra, a escola pública foi encontrando soluções de forma a auxiliar nesta nova realidade. Os primeiros ciclos de ensino a terminarem as aulas às três horas e trinta minutos – quais os empregos que conseguem sair às três  e tal da tarde? – manifestamente não há trabalho com este horário. Nem todas as actividades económicas podem ter escalas de horários a tempo parcial e como é lógico a remuneração é menor e nos tempos que correm em que os preços das rendas/prestações da casa, a alimentação, os combustíveis, ou seja, todos os bens e serviços indispensáveis à sobrevivência de um agregado familiar terem encarecido sobremaneira, por isso é imperativo que o casal esteja empregado e assim a grande necessidade de colocar os filhos nas actividades complementares propostas pela escola. Por vezes, estas não são suficientes para conjugar com o horário laboral de um dos pais – a sacrificada continua a ser a mulher – e não havendo uma rede familiar disponível recorre-se ao pagamento de centros de estudos e de actividades várias para que os filhos menores estejam em segurança até que alguém os leve para casa. É esta a realidade. Nem sempre há uma avó, nem sempre há uma tia. Nem sempre. O remédio é ficarem ao cuidado de monitores até que consigam ir para junto dos pais.


Acresce o facto: a maternidade acontece cada vez mais tarde, os avós estão numa fase já adiantada da sua "juventude" depois de um passado de muitos anos com a conjugação do trabalho remunerado e não remunerado, por conseguinte a disponibilidade física e emocional a entrar na curva descendente, ficando o seu papel de retaguarda condicionado. Aliás, muitas destas avós dedicaram-se a ser mães a tempo inteiro, ter a responsabilidade de outra vez a seu cargo a rotina de crianças às costas é deveras injusto, apesar dos avós nesta condição nunca se negarem e fazerem das tripas de coração para auxiliar os filhos nesta tarefa de substituição dos pais por umas largas horas dos dias, semanas, meses e anos.


Ficar horas a fio entregues a pessoas estranhas ao núcleo familiar é o melhor para a educação e formação de uma criança? Claramente que não é.


E o que propõem? 


A escritora Lídia Jorge dedicou algumas frases sobre este drama em que os filhos dos pais a trabalhar vivem? Esta actualidade, com superior interesse, é que deve ser trabalhada em discursos e não só abordar assuntos gastos de tanto enaltecidos de um passado longínquo em que nada se pode fazer para modificar todas aquelas acções condenáveis à luz das leis e da mente contemporâneas. As horas em contexto escolar ou em centros de actividades averbadas na caderneta da vida das nossas crianças que são mais do que o horário laboral de um funcionário público de uma autarquia é que devia preocupar estas ilustres pessoas a discursar em datas importantes na História de Portugal.


Será medo? 


Medo de suscitar a questão e ao apontar o caminho é regressar a um tempo ido que a mulher não merece, não quer e não é justo voltar? 


A solução está à frente do nosso nariz, porém ninguém quer comprometer-se com ela. Como este "problema" surgiu com a entrada da mulher no mundo laboral mais qualificado, era negociar um retrocesso da vida profissional da mulher e regressar a uma dependência salarial vinda em exclusivo do marido/companheiro. No entanto, é inviável e em muitos casos completamente impossível, uma vez que, os casamentos para a vida acabaram, há novas realidades familiares construídas: mães divorciadas com filhos em regime de guarda total, segundos casamentos com filhos de parte a parte e não é negociável não trabalhar. Viver de apoios do Estado também não é um remédio quando os subsídios da nossa segurança social não ombreiam com os de outros países europeus. 


É inegociável a mulher anular-se profissionalmente pela circunstância de não se querer um regresso ao passado e o assegurar da subsistência financeira de uma família não se coadunar com os padrões de outrora, as exigências familiares e pessoais são diferentes e requerem mais saldo na conta bancária. 


Os reajustes são obrigatórios. Mas, os sacrifícios não podem pender sempre para o mesmo lado da balança. 


Assistimos impávidos e serenos à precariedade familiar em conluio com a laboral, uma bomba relógio está em desenvolvimento e não se sabe quando vai rebentar. Delegar a educação base dos filhos às instituições de ensino é um erro que se está a pagar caro. A autoridade dos pais na vida dos filhos está a perder-se uma vez que as horas do dia não esticam e adoptam outra forma de educar recorrendo aos bens materiais e na regra de não contrariar os impulsos e atitudes para não haver discussões. 


Melhores dias virão, enquanto não chegarem, haja lucidez e não viver nestas bolhas de problemas escritos nos dedos esticados, sem o arrojo de apresentação de possíveis respostas para os resolver e de forma velada culparem a escola e a família de sujeitarem os filhos a grandes cargas horárias escolares. Quando a escola se foi ajustando às exigências naturais de uma sociedade moderna, onde o homem e a mulher têm de trabalhar para, enquanto pais, proporcionarem aos filhos uma vida digna. 


Todavia, há quem se desculpe com o trabalho para "abandonar" os filhos horas injustificáveis em actividades lúdicas ou a cargo dos avós quando pura e simplesmente os pais se demitem da tarefa de ser pais. Fica para outra vez, desenrolar este novelo.


 

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«(...)o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito, e a realidade dum solo exausto.» Miguel Torga